Circularidade veicular: como transformar veículos em novas fontes de valor?

Sustentabilidade e Transição Energética, Visão Geral

A indústria automotiva está ampliando sua visão sobre sustentabilidade. Se antes grande parte das discussões estava concentrada nas emissões durante o uso do veículo, agora o desafio envolve todo o seu ciclo de vida: dos materiais escolhidos no projeto ao destino de cada componente quando o automóvel deixa de circular.

Esse foi um dos pontos centrais do Simpósio SAE BRASIL de Circularidade Veicular 2026, que reuniu diferentes perspectivas da cadeia automotiva para discutir recuperação de materiais, reciclagem, desmontagem, rastreabilidade e novos modelos de negócio. Ao longo deste artigo, vamos explorar alguns dos principais pontos que ajudam a entender essa transformação.

Circularidade veicular vai muito além da reciclagem

Pensar em circularidade não significa apenas descobrir o que fazer com um veículo quando ele chega ao fim da vida útil. A mudança começa muito antes.

O modelo tradicional da indústria segue uma lógica relativamente linear: extrair recursos, fabricar, utilizar e, por fim, descartar. A economia circular propõe manter produtos, componentes e materiais em circulação pelo maior tempo possível.

Isso significa considerar a capacidade de reutilização, remanufatura, recuperação e reciclagem desde as primeiras decisões de engenharia.

Para a indústria automotiva, essa transformação ganha importância também pela evolução da eletrificação. A demanda crescente por materiais como lítio, níquel, cobalto, grafite, cobre e terras raras faz com que recuperar recursos já existentes seja cada vez mais estratégico.

Por isso, circularidade deixa de representar somente uma resposta ambiental. Ela passa a fazer parte das discussões sobre competitividade, disponibilidade de matérias-primas, inovação e segurança das cadeias de abastecimento.

O fim da vida útil de um veículo pode representar um novo começo

Um automóvel que deixa de circular ainda reúne uma quantidade significativa de recursos. Aço, alumínio, cobre, componentes eletrônicos e diversas peças podem ser recuperados e retornar à economia. Com a eletrificação, entram nessa equação também os materiais presentes nas baterias, incluindo lítio, níquel, cobalto e manganês. Essa perspectiva transforma a própria maneira de enxergar um veículo em fim de vida.

Em vez de ser considerado apenas um resíduo que precisa de destinação, ele passa a funcionar como uma fonte de materiais. O e-book apresenta essa lógica como uma espécie de mineração urbana: recursos que já foram extraídos e incorporados aos produtos podem ser recuperados para gerar novamente valor econômico.

E quanto maior for a capacidade de preservar o valor de um componente, maior pode ser o retorno para a cadeia. Antes de reciclar um material até sua matéria-prima, por exemplo, pode existir a possibilidade de reutilizar ou remanufaturar o próprio componente.

O desafio, portanto, não é simplesmente descartar melhor. É capturar o máximo de valor possível antes que um recurso saia do ciclo produtivo.

Projetar pensando na desmontagem muda toda a lógica

Um dos insights mais interessantes surge quando observamos um veículo não como um produto único, mas como um conjunto de diferentes cadeias de valor.

Carroceria, fluidos, pneus, plásticos, borrachas, bancos, espumas, carpetes, componentes eletrônicos, powertrain, cabos e baterias apresentam características completamente diferentes quando chega o momento de recuperá-los.

E algumas decisões tomadas ainda na engenharia do produto podem facilitar, ou dificultar, esse processo anos depois.

Nos plásticos, por exemplo, combinações complexas de materiais podem tornar a recuperação mais difícil. A escolha de materiais compatíveis e o desenvolvimento orientado à reciclabilidade facilitam o aproveitamento dos componentes no fim da vida útil.

A mesma lógica aparece nos sistemas eletroeletrônicos: reduzir a diversidade de materiais, padronizar componentes e criar soluções que facilitem a desmontagem pode aumentar o potencial de recuperação.

Surge, assim, uma mudança importante para a engenharia automotiva: o fim da vida útil começa a ser pensado ainda na fase de projeto.

O veículo do futuro não precisará apenas ser eficiente, seguro e tecnologicamente avançado. Sua capacidade de ser desmontado e ter seus materiais recuperados tende a ganhar cada vez mais relevância.

Rastreabilidade é uma das peças-chave dessa transformação

Existe, porém, uma pergunta fundamental: como garantir que os componentes realmente cheguem ao destino correto? É aqui que a rastreabilidade assume papel central.

Saber de onde veio um veículo, quais materiais estão presentes nele, quais peças foram retiradas, para onde foram destinadas e como poderão retornar à cadeia produtiva cria as condições necessárias para um sistema circular mais confiável.

No Brasil, a regulamentação da desmontagem automotiva já estabelece mecanismos relacionados à baixa veicular, registro das operações, controle da origem e destinação das peças, adequação das empresas e atendimento às exigências ambientais.

Além de organizar o mercado, esses mecanismos contribuem para combater a informalidade e profissionalizar a atividade de desmontagem e reciclagem.

A rastreabilidade também aparece como um ponto comum entre diferentes materiais e componentes analisados no e-book. Mesmo onde a tecnologia de reciclagem já existe, integrar informações e agentes continua sendo indispensável para ampliar a circularidade.

Ou seja: não basta saber reciclar. É preciso saber onde o recurso está, por onde passou e para onde ele vai.

O que hoje é resíduo pode se tornar um ativo

Talvez uma das mudanças de mentalidade mais importantes da circularidade esteja na própria definição de “resíduo”.

Um exemplo é o Automotive Shredder Residue (ASR), fração que permanece após processos convencionais de desmontagem e reciclagem de veículos.

Formado por materiais como plásticos mistos, espumas, têxteis e elastômeros, o ASR pode representar aproximadamente 20% a 25% do volume gerado nos processos convencionais de reciclagem automotiva, segundo o conteúdo apresentado no e-book.

É justamente aí que aparece uma oportunidade. Tecnologias como a reciclagem química por processos termoquímicos podem transformar materiais complexos em novos insumos, incluindo óleo industrial, gás energético e carbono sólido.

O que anteriormente representava apenas custo de destinação passa a ser analisado pela possibilidade de gerar produtos, recuperar recursos e até se conectar a mecanismos relacionados à redução de emissões e carbono.

Essa lógica resume bem uma das grandes oportunidades da economia circular: encontrar valor onde o modelo linear enxergava apenas um passivo.

As baterias mostram que cadeias circulares já são possíveis

Nem tudo está começando do zero. A cadeia brasileira de baterias chumbo-ácido é apresentada no material como um dos exemplos mais consolidados de circularidade na indústria automotiva.

A combinação entre logística reversa, fabricantes, distribuidores, comerciantes e recicladores permite que o chumbo recuperado retorne ao processo produtivo e seja utilizado novamente na fabricação de baterias.

É um exemplo importante porque mostra que benefícios ambientais e econômicos podem caminhar juntos: recupera-se uma matéria-prima relevante enquanto se reduz a necessidade de recursos primários.

Agora, a eletrificação acrescenta uma nova camada de complexidade.

As baterias de íons de lítio exigem estruturas capazes de recuperar materiais críticos e, em determinadas situações, permitem discutir também a chamada segunda vida, utilizando baterias automotivas em aplicações estacionárias de armazenamento de energia antes da reciclagem final.

O e-book aponta que iniciativas brasileiras já demonstram capacidade de recuperação de minerais como lítio, níquel, cobalto, manganês e terras raras, embora o volume disponível de baterias para reciclagem ainda seja relativamente reduzido.

Portanto, o desafio não está apenas na tecnologia. Será necessário estruturar toda uma cadeia capaz de coletar, rastrear, processar e reinserir esses recursos na economia.

Regulação e novos modelos de negócio podem acelerar a circularidade veicular

A transformação também passa pelas políticas públicas.

No Brasil, diferentes iniciativas vêm formando as bases desse movimento, incluindo a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC) e programas de inovação e desenvolvimento industrial.

Um destaque do material é o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), que conecta descarbonização, eficiência energética, inovação tecnológica e circularidade.

Entre os aspectos abordados estão metas progressivas de reciclabilidade e recuperabilidade dos veículos, além de requisitos relacionados à marcação de componentes, manuais de desmontagem, rastreabilidade e restrições ao uso de determinadas substâncias.

Essas mudanças afetam toda a cadeia.

Montadoras precisam incorporar ecodesign e análise de ciclo de vida. Fornecedores passam a lidar com conteúdo reciclado e rastreabilidade. Desmontadores e recicladores ganham relevância na recuperação de componentes. E novas oportunidades surgem em áreas como dados, logística reversa, valorização de resíduos e mercado de carbono.

A economia circular, portanto, não cria somente novas obrigações. Ela pode criar novos negócios.

O Brasil pode transformar circularidade em competitividade

O cenário brasileiro reúne avanços e desafios.

Cadeias como aço, alumínio, pneus, óleos lubrificantes e baterias chumbo-ácido já oferecem experiências importantes. O próprio rerrefino de óleos foi apresentado no simpósio como uma das cadeias circulares mais consolidadas do país, permitindo que fluidos retirados de veículos retornem à produção de novos óleos básicos.

Por outro lado, ainda existem desafios relacionados à gestão dos veículos em fim de vida, rastreabilidade, reciclagem das novas baterias e recuperação de materiais presentes em componentes cada vez mais complexos.

A experiência internacional também mostra que tecnologia sozinha não resolve essa equação. Regulamentação, infraestrutura, definição de responsabilidades e coordenação entre fabricantes, fornecedores, recicladores, centros de pesquisa e governo precisam avançar conjuntamente.

Essa visão sistêmica transforma a circularidade veicular de uma pauta exclusivamente ambiental em estratégia industrial.

O objetivo final não é apenas reciclar mais.

É projetar melhor, prolongar a utilização dos recursos, recuperar materiais estratégicos, reduzir desperdícios e criar valor em diferentes etapas do ciclo de vida.

Nesse cenário, o Brasil possui condições para avançar, apoiado pela dimensão de seu mercado, pela relevância da indústria automotiva e pela presença de uma ampla rede de fornecedores e instituições tecnológicas.

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